Page 55 - Publicacao

This is a SEO version of Publicacao. Click here to view full version

« Previous Page Table of Contents Next Page »
Ba i xo Vouga
REGIÃO CENTRO
BAIXO VOUGA
A ria é um enorme pólipo com os braços estendidos
pelo interior desde Ovar até Mira. Todas as águas
do Vouga, do Águeda e dos veios que nestes
sítios correm para o mar encharcam nas terras
baixas, retidas pela duna de quarenta e tantos
quilómetros de comprido, formando uma série
de poças, de canais, de lagos e uma vasta bacia
salgada. De um lado o mar bate e levanta
constantemente a duna, impedindo a água de
escoar; do outro é o homem que junta a terra
movediça e a regulariza. Vem depois a raiz e o charco numa magnífica estrada,
que lhe dá o estrume e o pão, o peixe e a água de rega. Abre canais e valas.
Semeia o milho na ria. Povoa a terra alagadiça e, à custa de esforços persistentes,
obriga a areia inútil a renovar constantemente a vida. Edifica sobre a água,
conquistando-a, como na Gafanha, onde alastra pela ria. Aduba-a com o fundo
que lhe dá o junco, a alga e o escasso – detritos de pequenos peixes. Exploram
a ria os mercantéis, que fazem o tráfego da sardinha, os barqueiros, que fazem
os fretes marítimos, os rendeiros das praias que
lhe aproveitam os juncais, os marnotos, que se
empregam no fabrico do sal, os moliceiros, que
apanham as algas, e finalmente os pescadores
da Murtosa, que são os únicos a quem se pode
aplicar este nome e que, entre outras redes,
usam a solheira, a rede de salto, a murgueira
e a branqueira.
O homem nestes sítios é quase anfíbio: a
água é-lhe essencial à vida e a população
filha da ria e condenada a desaparecer
com ela. Se a ria adoece, a população
adoece…. Na ria, o ar tem nervos: A
luz hesita e cisma e esta atmosfera
comunica distinção aos homens e às
mulheres, e até às coisas, mais finas na
claridade carinhosa, delicada e sensível
que as rodeia. A luz aqui estremece antes de
pousar…
Raúl Brandão, “
Os Pescadores
”, ed. Ulisseia, 1995, pp. 71-72
Guarda
Viseu
Aveiro
Coimbra
Leiria
Castelo Branco